Thursday, 23 June 2011

While my eyes...

Aprendi a amar meu exílio
Essa Terra de Robins e sem Sabiás
Esse céu da cor do mar de ressaca
Esse frio que faz precioso o sol

O trem me leva pra longe
cada vez mais
Plantação de chaminés caladas
vidas desconhecidas
casas enfileiradas portas coloridas

Sento na grama sempre úmida do meu jardim
perfume de hortelã e manjericão
e da saudade que vem no vento
Primavera, outono, verão

A porta me chama
O cão late
O marido chega
A noite não

Tudo passa
Ontem é hoje
E já vou com o amanhã

Vou voltar pra minha casa
e deixar minha casa pra trás
mala pesada
dois corações num peito pequeno demais

Quantas vidas que não vivi?
Por uma só as deixei

No fim nada importa
Levo nas mãos outras mãos apenas
Levo nos pés o caminho

As guerras
de bola de neve,
de amoras com Arthur
conchas com Daniel
o sorriso de William
a solidão de Denise
histórias em torno de uma fogueira
e na beira de uma cama
viagens sonhadas e vividas
encontros
lugares
amigas que poderiam ter sido pra sempre

e pedaços de felicidade.

Saturday, 2 April 2011

The years shall run like rabbits...

E eis que tenho trinta e um.

As fotos de meus amigos no Facebook mostram estranhos, adultos que tomaram lugar dos adolescentes com quem vivi aventuras e dias de tédio que pareciam durar para sempre. Se foram aquelas horas... as de amor, as de tristeza, os problemas que pareciam insolúveis... Foram todos.

Tenho outros agora. Parecem-me insolúveis também. E os amores eternos, e as tristezas, avassaladoras. Irão-se todas um dia. E meu sorriso de mulher e mãe dará lugar a outra face. A face de uma estranha a que o tempo ainda há de me apresentar.

Assisti num outro dia um filme de amor no qual o casal só tem um dia juntos. E justamente por isso o que sentem um pelo outro dura a vida toda.

Foi nesse filme que ouvi um pedaço do poema abaixo, que agora, leio todo e posto para vocês.
Poema sobre o tempo.
A única coisa nesse mundo de paixões e desgraças,
de beleza e pavor,
a única coisa
que vai existir para sempre.



And the years will run like rabbits

As I Walked out one Evening



As I walked out one evening,
Walking down Bristol Street,
The crowds upon the pavement
Were fields of harvest wheat.


And down by the brimming river
I heard a lover sing
Under the arch of a railway
"Love has no ending.


'I'll love you dear, I'll love you
Till China and Africa meet,
And the river jumps over the mountain
And salmon sing in the street,


'I'll love you till the ocean
Is folded and hung up to dry
And the seven stars go squaking
Like geese about the sky.


The years shall run like rabbits,
For in my arms I'll hold
The Flower of the Ages,
And the first love of the world.'

But all the clocks in the city
Began to whirr and chime:
'O let not Time deceive you,
You cannot conquer Time.

'In the burrows of the Nightmare

Where Justice naked is,

Time watches from the shadow
And coughs when you would kiss.
'In headaches and in worry

Vaguely life leaks away,
And Time will have his fancy
To-morrow or to-day.

'Into many a green valley

Drifts the appalling snow;
Time breaks the threaded dances
And the diver's brilliant bow.


'O plunge your hands in the water,
Plunge them in up to the wrist;
Stare, stare into the basin
And wonder what you've missed.


'The glacier knocks on the cupboard,
The desert sighs in the bed,

And the crack in the tea-cup opens
A lane to the land of the dead.

'Where the beggars raffle the banknotes

And the Giant is enchanting to Jack,

And the Lily-white Boy is a Roarer,

And Jill goes down on her back.
 'O look, look in the mirror,

O look in your distress;

Life remains a blessing

Although you cannot bless.

'O stand, stand in the window

As the tears scald and start;

You shall love your crooked neighbor

With all your crooked heart.'
 It was late, late in the evening,

The lovers they were gone;

The clocks had ceased their chiming,

And the deep river ran on.



-W.H. Auden


Monday, 21 March 2011

Minha invencível, ingrata e diária guerra particular

A sala me encara de volta, com a petulância de quem sabe que tem a batalha ganha. Casacos de diferentes tamalhos cobrem as cadeiras como armaduras, cadernos e livros se amontoam numa pilha no canto prestes a atacar, duas bolsas amarelas com roupas para passar me encaram desafiantes. E há ainda poeira nos móveis, terra vinda do jardim, porpurina de um projeto da escola do Arthur...

Não foi ainda ontem que eu venci essa guerra?

Me sinto como num video-game de zumbis imortais.
Tem dia que balanço a bandeira branca sem nem tentar, derrotada pela enormidade do desafio.
Tem dia que vou pra luta, aspirador em punho, e depois de algumas horas de suor, descabelada e arrasada, saboreio a ilusão da batalha vencida.

Estou exagerando? Sou uma patricinha tomando um choque de realidade?
Provavelmente.

Mas é que arrumar a casa 1 vez ao dia, lavar a louça 3, varrer, espanar, botar a mesa, tirar a mesa, arrumar a cama, lavar roupa, passar roupa, fazer faxina no banheiro e na cozinha... (ai, canso até de listar!) me parece nada mais que um desperdício de mim mesma, do meu tempo limitado nesse mundo.
É ou não é?

Como diz o Daniel citando o Gil Brother, sou mesmo da geração "leite-com-pêra" e me envergonho um pouco dessa pena de mim mesma que me bate quando encaro minha atual condião de dona de casa... Mas não consigo evitar de pensar que não era isso que eu queria estar fazendo do meu dia. E que a batalha contra a bagunça é vencida apenas temporariamente...

Entropia, meus amigos. Não há como derrotar as leis da física.

Caos.
Fora - e muitas vezes - dentro de mim.

Wednesday, 9 March 2011

Over thinking!

As vezes tenho a sensação de que minha cabeça é muito pequena para tanto pensamento, tanta preocupação, tantos planos... Tento esvaziar um pouco pintando, escrevendo, chorando, mas ainda assim, às vezes a carga é demais pro pescoço e ele reclama, endurece, curva...

Queria poder descascar-me qual laranja. Tirar de mim camada por camada. Deixar so a polpa, só o que importa, só as sementes.


Thursday, 16 December 2010

Bittersweet comments about myself and the others...

Tenho estado num mau-humor danado com os ingleses. E vice-versa.

Não é que eu, ou melhor, nós não tenhamos motivos para isso: o inverno chegou com tudo, acordamos antes do sol e lanchamos já sem ele... mesmo no meio do dia a escuridão se anuncia, manchando tudo de um cinza triste... ou seja, perdoem-nos a falta de sorrisos, mas é que tá f....!!!!

Eu tenho andado tão irritada com eles que aproveito qualquer oportunidade pra falar mal daqui... falo mal da política conservadora pela qual eles votaram e agora tá descascando o couro de todo mundo - "bem feito!!!"... Falo da falta de entusiasmo deles pela vida, da excelente qualidade de vida a que eles tem acesso e que ainda assim não lhes proporcina a felicidade, a espontaneidade e a descontração que sobra ao meu povo.... Falo da educação, cheia de recursos e ideais, mas que ao mesmo tempo legitima o poder e a superioridade do adulto em relação a criança, em cenas cotidianas que beiram a humilhação.... Falo das filas, do consumismo, da culinária de cocô que eles tem...

Não sei... talvez eu começo inconscientemente a querer me certificar de que aqui não é mesmo o meu lugar... talvez seja um primeiro passo rumo ao adeus que se anuncia no horizonte... afinal, se eles são tão ruins, não haverá motivo de tristeza ou saudade na hora de ir embora...

maybe...

may be...

eu sou assim: melodrámática nos meus ódios... e também nos meus amores.




Wednesday, 1 September 2010

Um post para Bruna

Minha irmã me pediu pra eu escrever no blog. Confesso que sou uma preguiçosa por natureza e sou demais complacente com essa minha qualidade. Quase que me orgulho dela e certamente a alimento...

Enfim, tenho passado por momentos inspiradores que, em mãos mais dedicadas, poderiam virar páginas e páginas de divagações, mas no meu caso, não quero escrever sobre nenhum deles...

Minha irmã me pediu que eu escrevesse no Blog. Então o post, que é para ela, vai ser também sobre ela:

Bruna fazia tudo sempre certo. Comia vegetais. E não bebia coca-cola. Namorava há muitos e muitos anos um mesmo rapaz. E era fiel. Cedia. Não esquecia de aniversários. Fazia o dever de casa. E tirava 10. Bruna era bonita, inteligente e educada.

E ainda sim, alguma coisa borbulhava nas suas entranhas e ameaçava escapar-lhe do peito. Alguma coisa que era também ela mesma e por isso mesmo, a amedrontava e tirava-lhe o sono...

Um dia Bruna matou a aula. Nadou pelada no mar do arpoador. Almoçou Doritos. Deu um bolo no namorado e foi fazer a unha dos pés. Disse não para o mendigo. Olhando-o nos olhos. Se esfoçou em por pelo menos um palavrão em cada frase.


E quando chegou em casa, exausta do dia de maldades, não tomou banho. E com o cabelo ainda cheio do sal e areia da praia, sentou na cadeira e desenhou. Desenhou com uma paixão de rasgar o papel. Cores que não combinavam. Vermelho, preto e roxo. Traços tremidos...

E dormiu em cima do papel, o sono pesado dos justos....



Fim.


Ps. Esse texto é uma licença poética. Bruna na verdade não é toda certinha... Nem muito menos toda amalucada! Ela fala palavrão e dá chilique. Mas também é doce e prestativa. Um ser humano saudável e que me inspira a textos, divagações e projeções.... Minha Bruna tem Preto, vermelho e roxo, mas também branco e azul turqueza... traços tremidos desenhando um rosto de olhar firme... um rosto de mulher.

Thursday, 17 June 2010

Meus diálogos com o Eddy...

Dominada por um impulso de proporções kilométricas e por um amor de dimensões infinitas, resolvi dar um cachorrinho de presente de aniversário para o Arthur. Claro que não devo também subestimar o papel que eterna culpa desempenhou na minha decisão (como se não bastassem os inevitáveis traumas que minhas neuroses infligiram no menino, ainda arrastei o pobre pruma terra gelada e inóspita!).

O Daniel ainda avisou, e até rogou praga, de que eu iria me arrepender de não comprar um gato (segundo o meu marido, eles se auto-limpam e se auto-cuidam, só precisando ocasionalmente de você para pagar as contas).

Bem, a praga funcionou, pois uma semana e quinhentos cocôs no tapete do corredor depois, eu já estava amargamente, desesperadamente e completamente arrependida!
O bicho é uma máquina de necessidades! E - ponto comum com os gatos - ainda precisa de você para pagar as contas!!! Que não são poucas, aliás...

Como passo o dia inteiro sozinha com o Eddy, me pego tendo os mais bizarros diálogos - ou será monólogos? - com ele. Enquanto eu lavo a cotidiana pilha de louça na cozinha, reclamo sem parar - e muito entusiasticamente - do cachorro... para ele mesmo!

Lá estou eu me referindo a mim mesma na terceira pessoa como "a vovó" e dramaticamente enumerando as razões pelas quais ele merece minhas broncas e as ainda mais numerosas razões pelas quais "a vovó" nao merece ainda mais trabalho do que já tem.

E lá está ele me olhando impassível, com a cabecinha ligeiramente inclinada e sem piscar os olhos redondos, numa expressão que só posso identificar como pena de mim ou dele mesmo.

Imagino que o coitado tenta compreender porque cargas dágua eu fui tirar ele da lojinha na qual ele morava e se divertia com amigos peludos e igualmente mal-cheirosos, e até paquerava uma buldoguesinha bem feinha de cara, mas com um rabinho bem bonitinho...

Rspondendo a sua pergunta muda, penso na imensa alegria que senti ao - ainda menina - ganhar a Naná - uma poodle preta e miúda de presente dos meus pais... Penso na árvore dela, crescendo no jardim de Maricá.
Penso em um menino solitário e sensível, sem irmãos ou primos e longe dos avós e de todo o mundo que sabe o quanto ele é especial...
Penso nas risadas que já demos desde que o Eddy chegou, nas caminhadas que ele nos faz dar, nas portas da sala, que agora vivem abertas para o jardim, no convite que ele me faz a ser adulta e responsável pelas minhas escolhas e pela minha família...

- Eddy, não me leve a mal, eu sei que a vovó é chatinha, mas é só porque você nao entende, viu? A vovó te ama já, mesmo você sendo fedorendo desse jeito... - e, prendendo a respiração, dou um demorado abraço no nosso cachorrinho, porque carinho com certeza ele entende!