Sunday, 2 June 2019

Surpresa no jardim!

Era uma vez num começinho de primavera em uma país muito distante, um reizinho que brincava num jardim...


Saturday, 23 July 2016

Half open



Estar metade aberta é estar metade fechada
Parte coberta pelas camadas de tempo
Pelas muitas mãos da mãe
Pelas muitas mães
É estar protegida do mundo
Escondendo minha cor
Até de meus próprios olhos
Minha escuridão particular

Minha metade fechada é sobre quem eu quero falar
Num rodamoinho em torno de um umbigo
Cujo cordão ainda está lá

A parte aberta grita
Se faz vermelha
Se faz azul
arregaça sem medo de rasgar
As pétalas vão murchar ao sol do meio dia
Que caiam antes então
Exaustas do esforço de perfumar

Metade em mim
Metade no mundo

Respira
Expira

Exala

Vai

Monday, 26 September 2011

Hoje no recreio

 
- I want to tell you something, Will. I am soon going to be going back to my home country and, because of that, I am gonna stop working here, at the school. Actually, this is my last week and Friday will be our last day together at playtime.

William, um menino de seis anos com cabelos selvagens e louros, olha para mim surpreso. Seus olhos são tristes mas ele sorri de leve enquanto suspira: 

- Aaaahhhhhhh...

Ele para e pensa por um momento, sentado no trem de madeira no meio de playground. Ele olha nos meus olhos, mais um sorriso e diz, no mesmo tom sério e amoroso, quase cantado, que muitas vezes usei com ele nos meses em que trabalhei na escola.
Um tom de adulto falando com criança,
pai com filho:

- You make the most of it, ladie!

Obrigada, Will. Vou levar esse momento no meu coração.
E tantos outros.

E certamente, I'll make the most of it.

Thursday, 4 August 2011

Para a bárbara bailarina

Ela andava na corda bamba. A saia de filó se abria num círculo azul, desenhando uma flor ao redor de sua cintura fina. Mais alguns passos. Não olhe para baixo. Siga sempre em frente, sempre em frente... Mas a queda sob a corda também a queria. Também ela cantava sua melodia, como uma sereia que tenta os pescadores para prazeres desconhecidos no fundo do mar. Ouvia os tambores. A respiração presa do público. E o rufar dentro seu peito. Tinha os braços esticados. Como se voasse. Só mais alguns passos. Asas prontas. E uma flor azul que plaina, levada pela brisa da primavera.

Thursday, 23 June 2011

While my eyes...

Aprendi a amar meu exílio
Essa Terra de Robins e sem Sabiás
Esse céu da cor do mar de ressaca
Esse frio que faz precioso o sol

O trem me leva pra longe
cada vez mais
Plantação de chaminés caladas
vidas desconhecidas
casas enfileiradas portas coloridas

Sento na grama sempre úmida do meu jardim
perfume de hortelã e manjericão
e da saudade que vem no vento
Primavera, outono, verão

A porta me chama
O cão late
O marido chega
A noite não

Tudo passa
Ontem é hoje
E já vou com o amanhã

Vou voltar pra minha casa
e deixar minha casa pra trás
mala pesada
dois corações num peito pequeno demais

Quantas vidas que não vivi?
Por uma só as deixei

No fim nada importa
Levo nas mãos outras mãos apenas
Levo nos pés o caminho

As guerras
de bola de neve,
de amoras com Arthur
conchas com Daniel
o sorriso de William
a solidão de Denise
histórias em torno de uma fogueira
e na beira de uma cama
viagens sonhadas e vividas
encontros
lugares
amigas que poderiam ter sido pra sempre

e pedaços de felicidade.

Saturday, 2 April 2011

The years shall run like rabbits...

E eis que tenho trinta e um.

As fotos de meus amigos no Facebook mostram estranhos, adultos que tomaram lugar dos adolescentes com quem vivi aventuras e dias de tédio que pareciam durar para sempre. Se foram aquelas horas... as de amor, as de tristeza, os problemas que pareciam insolúveis... Foram todos.

Tenho outros agora. Parecem-me insolúveis também. E os amores eternos, e as tristezas, avassaladoras. Irão-se todas um dia. E meu sorriso de mulher e mãe dará lugar a outra face. A face de uma estranha a que o tempo ainda há de me apresentar.

Assisti num outro dia um filme de amor no qual o casal só tem um dia juntos. E justamente por isso o que sentem um pelo outro dura a vida toda.

Foi nesse filme que ouvi um pedaço do poema abaixo, que agora, leio todo e posto para vocês.
Poema sobre o tempo.
A única coisa nesse mundo de paixões e desgraças,
de beleza e pavor,
a única coisa
que vai existir para sempre.



And the years will run like rabbits

As I Walked out one Evening



As I walked out one evening,
Walking down Bristol Street,
The crowds upon the pavement
Were fields of harvest wheat.


And down by the brimming river
I heard a lover sing
Under the arch of a railway
"Love has no ending.


'I'll love you dear, I'll love you
Till China and Africa meet,
And the river jumps over the mountain
And salmon sing in the street,


'I'll love you till the ocean
Is folded and hung up to dry
And the seven stars go squaking
Like geese about the sky.


The years shall run like rabbits,
For in my arms I'll hold
The Flower of the Ages,
And the first love of the world.'

But all the clocks in the city
Began to whirr and chime:
'O let not Time deceive you,
You cannot conquer Time.

'In the burrows of the Nightmare

Where Justice naked is,

Time watches from the shadow
And coughs when you would kiss.
'In headaches and in worry

Vaguely life leaks away,
And Time will have his fancy
To-morrow or to-day.

'Into many a green valley

Drifts the appalling snow;
Time breaks the threaded dances
And the diver's brilliant bow.


'O plunge your hands in the water,
Plunge them in up to the wrist;
Stare, stare into the basin
And wonder what you've missed.


'The glacier knocks on the cupboard,
The desert sighs in the bed,

And the crack in the tea-cup opens
A lane to the land of the dead.

'Where the beggars raffle the banknotes

And the Giant is enchanting to Jack,

And the Lily-white Boy is a Roarer,

And Jill goes down on her back.
 'O look, look in the mirror,

O look in your distress;

Life remains a blessing

Although you cannot bless.

'O stand, stand in the window

As the tears scald and start;

You shall love your crooked neighbor

With all your crooked heart.'
 It was late, late in the evening,

The lovers they were gone;

The clocks had ceased their chiming,

And the deep river ran on.



-W.H. Auden


Monday, 21 March 2011

Minha invencível, ingrata e diária guerra particular

A sala me encara de volta, com a petulância de quem sabe que tem a batalha ganha. Casacos de diferentes tamalhos cobrem as cadeiras como armaduras, cadernos e livros se amontoam numa pilha no canto prestes a atacar, duas bolsas amarelas com roupas para passar me encaram desafiantes. E há ainda poeira nos móveis, terra vinda do jardim, porpurina de um projeto da escola do Arthur...

Não foi ainda ontem que eu venci essa guerra?

Me sinto como num video-game de zumbis imortais.
Tem dia que balanço a bandeira branca sem nem tentar, derrotada pela enormidade do desafio.
Tem dia que vou pra luta, aspirador em punho, e depois de algumas horas de suor, descabelada e arrasada, saboreio a ilusão da batalha vencida.

Estou exagerando? Sou uma patricinha tomando um choque de realidade?
Provavelmente.

Mas é que arrumar a casa 1 vez ao dia, lavar a louça 3, varrer, espanar, botar a mesa, tirar a mesa, arrumar a cama, lavar roupa, passar roupa, fazer faxina no banheiro e na cozinha... (ai, canso até de listar!) me parece nada mais que um desperdício de mim mesma, do meu tempo limitado nesse mundo.
É ou não é?

Como diz o Daniel citando o Gil Brother, sou mesmo da geração "leite-com-pêra" e me envergonho um pouco dessa pena de mim mesma que me bate quando encaro minha atual condião de dona de casa... Mas não consigo evitar de pensar que não era isso que eu queria estar fazendo do meu dia. E que a batalha contra a bagunça é vencida apenas temporariamente...

Entropia, meus amigos. Não há como derrotar as leis da física.

Caos.
Fora - e muitas vezes - dentro de mim.

Wednesday, 9 March 2011

Over thinking!

As vezes tenho a sensação de que minha cabeça é muito pequena para tanto pensamento, tanta preocupação, tantos planos... Tento esvaziar um pouco pintando, escrevendo, chorando, mas ainda assim, às vezes a carga é demais pro pescoço e ele reclama, endurece, curva...

Queria poder descascar-me qual laranja. Tirar de mim camada por camada. Deixar so a polpa, só o que importa, só as sementes.


Thursday, 16 December 2010

Bittersweet comments about myself and the others...

Tenho estado num mau-humor danado com os ingleses. E vice-versa.

Não é que eu, ou melhor, nós não tenhamos motivos para isso: o inverno chegou com tudo, acordamos antes do sol e lanchamos já sem ele... mesmo no meio do dia a escuridão se anuncia, manchando tudo de um cinza triste... ou seja, perdoem-nos a falta de sorrisos, mas é que tá f....!!!!

Eu tenho andado tão irritada com eles que aproveito qualquer oportunidade pra falar mal daqui... falo mal da política conservadora pela qual eles votaram e agora tá descascando o couro de todo mundo - "bem feito!!!"... Falo da falta de entusiasmo deles pela vida, da excelente qualidade de vida a que eles tem acesso e que ainda assim não lhes proporcina a felicidade, a espontaneidade e a descontração que sobra ao meu povo.... Falo da educação, cheia de recursos e ideais, mas que ao mesmo tempo legitima o poder e a superioridade do adulto em relação a criança, em cenas cotidianas que beiram a humilhação.... Falo das filas, do consumismo, da culinária de cocô que eles tem...

Não sei... talvez eu começo inconscientemente a querer me certificar de que aqui não é mesmo o meu lugar... talvez seja um primeiro passo rumo ao adeus que se anuncia no horizonte... afinal, se eles são tão ruins, não haverá motivo de tristeza ou saudade na hora de ir embora...

maybe...

may be...

eu sou assim: melodrámática nos meus ódios... e também nos meus amores.




Wednesday, 1 September 2010

Um post para Bruna

Minha irmã me pediu pra eu escrever no blog. Confesso que sou uma preguiçosa por natureza e sou demais complacente com essa minha qualidade. Quase que me orgulho dela e certamente a alimento...

Enfim, tenho passado por momentos inspiradores que, em mãos mais dedicadas, poderiam virar páginas e páginas de divagações, mas no meu caso, não quero escrever sobre nenhum deles...

Minha irmã me pediu que eu escrevesse no Blog. Então o post, que é para ela, vai ser também sobre ela:

Bruna fazia tudo sempre certo. Comia vegetais. E não bebia coca-cola. Namorava há muitos e muitos anos um mesmo rapaz. E era fiel. Cedia. Não esquecia de aniversários. Fazia o dever de casa. E tirava 10. Bruna era bonita, inteligente e educada.

E ainda sim, alguma coisa borbulhava nas suas entranhas e ameaçava escapar-lhe do peito. Alguma coisa que era também ela mesma e por isso mesmo, a amedrontava e tirava-lhe o sono...

Um dia Bruna matou a aula. Nadou pelada no mar do arpoador. Almoçou Doritos. Deu um bolo no namorado e foi fazer a unha dos pés. Disse não para o mendigo. Olhando-o nos olhos. Se esfoçou em por pelo menos um palavrão em cada frase.


E quando chegou em casa, exausta do dia de maldades, não tomou banho. E com o cabelo ainda cheio do sal e areia da praia, sentou na cadeira e desenhou. Desenhou com uma paixão de rasgar o papel. Cores que não combinavam. Vermelho, preto e roxo. Traços tremidos...

E dormiu em cima do papel, o sono pesado dos justos....



Fim.


Ps. Esse texto é uma licença poética. Bruna na verdade não é toda certinha... Nem muito menos toda amalucada! Ela fala palavrão e dá chilique. Mas também é doce e prestativa. Um ser humano saudável e que me inspira a textos, divagações e projeções.... Minha Bruna tem Preto, vermelho e roxo, mas também branco e azul turqueza... traços tremidos desenhando um rosto de olhar firme... um rosto de mulher.

Thursday, 17 June 2010

Meus diálogos com o Eddy...

Dominada por um impulso de proporções kilométricas e por um amor de dimensões infinitas, resolvi dar um cachorrinho de presente de aniversário para o Arthur. Claro que não devo também subestimar o papel que eterna culpa desempenhou na minha decisão (como se não bastassem os inevitáveis traumas que minhas neuroses infligiram no menino, ainda arrastei o pobre pruma terra gelada e inóspita!).

O Daniel ainda avisou, e até rogou praga, de que eu iria me arrepender de não comprar um gato (segundo o meu marido, eles se auto-limpam e se auto-cuidam, só precisando ocasionalmente de você para pagar as contas).

Bem, a praga funcionou, pois uma semana e quinhentos cocôs no tapete do corredor depois, eu já estava amargamente, desesperadamente e completamente arrependida!
O bicho é uma máquina de necessidades! E - ponto comum com os gatos - ainda precisa de você para pagar as contas!!! Que não são poucas, aliás...

Como passo o dia inteiro sozinha com o Eddy, me pego tendo os mais bizarros diálogos - ou será monólogos? - com ele. Enquanto eu lavo a cotidiana pilha de louça na cozinha, reclamo sem parar - e muito entusiasticamente - do cachorro... para ele mesmo!

Lá estou eu me referindo a mim mesma na terceira pessoa como "a vovó" e dramaticamente enumerando as razões pelas quais ele merece minhas broncas e as ainda mais numerosas razões pelas quais "a vovó" nao merece ainda mais trabalho do que já tem.

E lá está ele me olhando impassível, com a cabecinha ligeiramente inclinada e sem piscar os olhos redondos, numa expressão que só posso identificar como pena de mim ou dele mesmo.

Imagino que o coitado tenta compreender porque cargas dágua eu fui tirar ele da lojinha na qual ele morava e se divertia com amigos peludos e igualmente mal-cheirosos, e até paquerava uma buldoguesinha bem feinha de cara, mas com um rabinho bem bonitinho...

Rspondendo a sua pergunta muda, penso na imensa alegria que senti ao - ainda menina - ganhar a Naná - uma poodle preta e miúda de presente dos meus pais... Penso na árvore dela, crescendo no jardim de Maricá.
Penso em um menino solitário e sensível, sem irmãos ou primos e longe dos avós e de todo o mundo que sabe o quanto ele é especial...
Penso nas risadas que já demos desde que o Eddy chegou, nas caminhadas que ele nos faz dar, nas portas da sala, que agora vivem abertas para o jardim, no convite que ele me faz a ser adulta e responsável pelas minhas escolhas e pela minha família...

- Eddy, não me leve a mal, eu sei que a vovó é chatinha, mas é só porque você nao entende, viu? A vovó te ama já, mesmo você sendo fedorendo desse jeito... - e, prendendo a respiração, dou um demorado abraço no nosso cachorrinho, porque carinho com certeza ele entende!

Thursday, 27 May 2010

Arte, amigos e um post pequeno demais

Em novembro do ano passado começei a fazer um curso em Arte aplicada a Terapia e Educacão.

Só a pronúncia do tema, já me enche a boca d'agua. Vocês enteriam só de ver o prédio onde estudo. É tudo tão lindo e inspirador, todo pintado a mão, mesmo no banheiro tem rosas pelas paredes.

Com a ajuda financeira dos meus pais e o apoio do meu marido querido, consegui pagar e frequentar o curso durante todos esses meses. Aprendi um bocado sobre como usar argila, pintura, corpo e movimento, música e fantoches num processo terapêutico, mas também aprendi bastante sobre mim mesma.

Os meus talentos, adormecidos um por cima do outro, amontoados num bolinho bolorento na boca do estômago, foram acordados por um sol forte na cara e a promessa de um dia bonito lá fora.

Esse curso me deu - e me dá - vontade de ser eu mesma. De procurar, desenvolver e ofertar o que tenho de bom e único em mim.

Quero sim ser psicóloga! Quero sim trabalhar com arte! Posso sim, os dois!!!!

E, como se já não bastasse ter me posto nas mãos a bússula para os meus desejos e capacidades profissionais, o curso me deu de bônus 14 amigas!

Inacreditavelmente, hoje posso dizer que tenho amigas aqui na Inglaterra. E 14 delas!!!! Mulheres sensíveis, parceiras numa busca por mais, por melhor! Com elas divido a cada sexta-feira, segredos impublicáveis, abraços demorados, conselhos em inglês, litros de lágrimas, risadas histéricas e intermináveis caixas de bombom... Minhas amigas são inglesas, húngaras, irlandesas, polonesas, indianas... mas não importa, com elas estou em casa.

Melhor parar por aqui, não cabe tanto contentamento num simples post. Para traduzir com exatidão a felicidade de se ter sonhos e amigos, só se o post fôsse um livro, uma obra de arte, ou um abraço.

Sunday, 9 May 2010

Epifanias sobre o tempo, num dia das maes melancolico...

Tres quase anos se passaram desde que nos tres viemos, com muito medo e esperanca no coracao, morar nessa ilha chamada Reino Unido. Parece que foi mais, mas parece que foi tao rapido...
Nove quase anos se passaram desde que nos dois, tambem com muito medo e esperanca no coracao,viramos uma famila, numa manha chuvosa de um domingo das maes, como hoje. Mais uma vez parece mais, mas parece que foi tao, tao rapido...
E finalmente, trinta anos completos se passaram desde que eu entrei nesse mundo - certamente com medo e talvez uma esperanca crua e sem nome num coracao ainda novo, sem dor ou cicatriz.... Parece mais? Passou rapido?

As coisas acontecem, encontros, despedidas, estacoes do ano e viagens... somos ainda criancas a chamar por nossas maes num momento de desespero, somos adultos cuidando de um menino e torcendo de toda a alma que estejamos fazendo nosso melhor...
O tempo, esse nada que nos come e nos alimenta, esses dias que se estendem nos dias de paz e se encurtam na alegria demasiada ou na tragedia absoluta, essa vida com uma morte anunciada, uma promessa de fim, um agora que nos escapa...

O tempo e a vida me vieram visitar o coracoa hoje. Presente de um dia das maes. Presente.

Tuesday, 29 September 2009

Small post sobre small talk.

Os britânicos são mestres na arte da small talk. Fique 5 minutos numa sala fechada e sem janelas com um e ele dará um jeito de comentar sobre o tempo. Não é exatamente o que eles usam para iniciar uma conversa. É a conversa. E ponto. Fale de algo mais profundo, pessoal ou polêmico e eles se mostrarão confusos, constrangidos e visivelmente chocados.

Amenidades, meus amigos, vamos nos ater as amenidades.

Ps. Estou malvadinha hoje.

Sunday, 7 June 2009

Apèndice de carta para a Rainha

Querida Rainha,



Quando cheguei no seu país, no seu reino unido, com um frio na barriga e em todo resto também, confesso que torci o nariz... Resolvi que ia escrever para você uma lista, reclamando de tudo o que não gostava.


Agora, mais de um ano e meio depois, confesso que continuo não gostando de muitas coisas, mas acho que você gostaria de saber que a lista mudou. Os pontos negativos diminuíram em quantidade, e acrescentei nela um apêndice de - pasmem! - elogios. Coisas que o tempo e a experiência me ensinaram a apreciar, e algumas até mesmo até ganharam um canto no meu coração de carioca.


E é sobre esse "quase-PS" embaixo de uma penca de reclamações indignadas que resolvi escrever aqui hoje:

  • A arquitetura. As casas de tijolos vermelhos e, como diria a minha mãe, a plantação de chaminés que se vê contra o céu cinza. É como se as ruas e os bairros se comprassem suas roupas na mesma loja, todos combinando. Nada destoa, tudo se completa numa paisagem que só existia antes para mim nos livros, filmes e na imaginação. Ninguém resolve de repente, por exemplo, que o legal é o moderno, ninguém passa a construir prédios coloridos, numa área de casinhas antigas. Procura-se, ao contrário, respeitar o que já existe antes, se manter um estilo que diz um pouco sobre quem se é. Me faz pensar como, até nisso, vocês valorizam o coletivo, o fazer parte de uma história, de uma cultura, de um país.

  • Os parques. Bem cuidados e espalhados pela cidade toda. São a praia do seu povo, o lugar em que eles se permitem ficar descalços e deitar no chão. O único defeito é a falta do barulhinho do mar.

  • Os, ou melhor dizendo, alguns, britânicos. Êta, povinho difícil de se gostar! Acho que é porque vocês não fazem a mínima questão de serem gostados. Alguns parecem estar todo dia num mau dia e outros fazem parte, definitivamente, da primeira parte da minha lista. Mas, justiça seja feita, você tem dentre seus súditos, pessoas realmente especiais, ou que pelo menos, se fizeram especiais para mim. São eles os garotos propaganda que eu escolhi para o marketing da Inglaterra no meu coração:
As velhinhas que lotam os ônibus vermelhos de manhã, com bengalas e óculos, estereótipos da gentileza e de uma elegância e dignidade tipicamente britânica.
As pessoas que pararam seus carros e ficaram comigo, uma estranha desnorteada e estrangeira, no dia em que passei mal na rua.
Vizinhos, mães de amiguinhos do Arthur e outros que se encaixam apenas na categoria dos "conhecidos", aqueles com os quais não tenho - nem me dão! - nenhuma intimidade, mas que ainda assim, são extremamente simpáticos, solícitos e educados, de um jeito que só os ingleses sabem ser.
Os cúmplices da espera diária do ônibus da manhã: sempre os mesmo 4 estranhos que encontro todos os dias por 5 minutos, e com os quais não troco mais do que 2 palavras, não mais que comentários ou, mais frequentemente, um simples arquear de sombrancelhas a respeito da demora do maldito ônibus. Rostos com vidas próprias e desconhecidas que, de alguma forma, se tornaram íntimos e queridos para mim.

Ps. Lendo esse tópico, vejo que faço realmente um esfôrço no sentido de gostar da sua gente. Quero muito gostar deles, tanto que construo fantasias e me contento com o "muito pouco" que oferecem.

  • Os ônibus vermelhos. Principalmente o meu amado e odiado 227 (que também não escapa da primeira parte da minha lista).


  • O The Guardian dos sábados de manhã. Como eu vou conseguir voltar a ler O GLOBO depois de me acostumar com a qualidade da imprensa inglesa? Oh Dear!


  • Por falar em imprensa, meus parabéns pela BBC! TV sem comerciais, com programas de excelente qualidade, que tem a coragem e a fineza de se auto-criticar quando necessário. As apresentadoras de telejornais zumbis e os empolgados homens do tempo a parte, é a melhor tv do mundo, sem dúvida nenhuma.


  • Por falar em BBC, o Apprentice (O Aprendiz daqui) tem que constar na minha lista. E não só o programa, que é um annual guilty pleasure of mine, mas também e principalmente quem dá graça a ele: Sir Alan Sugar. Eu nunca vi a versão Brasileira - e nem pretendo - , mas também, como poderia? Roberto Justus, você que me desculpe, mas "you don´t have a bloody clue, do you?".


  • A Pimavera, o verão, o outono e o inverno. É. Todos eles mesmo! É tão gostoso ver a passagem do tempo na paisagem, nas árvores que perdem as folhas no outono, morrem e renascem na primavera, numa explosão de vida e cores. Aprendi a valorizar o calor do sol, a nçao deixar um dia de céu azul passar em branco. Aqui, no seu país, é possivel ver e sentir o ciclo da vida e apreciar o que cada estação, seja ela de morte ou recomeçar, tem a oferecer.

  • A sua organização e eficiência. Vocês chegam a ser engraçados de tão civilizados. Aos meus olhos acostumados com o jeitinho e a bagunça brasileira, no começo vocês me irritavam com tanta polidez. Pensando bem, vocês ainda me irritam, mas agora sei que o lado bom da sua falta de espontaneidade é compensado por uma sociedade que funciona, que respeita o direito do próximo, que não fura fila e não rouba no troco. Vocês me mandam cartas perguntando se concordamos com a demolição de um prédio vizinho, outras prestando contas dos impostos pagos, vocês recliclam o meu lixo e dão uma educação de primeira qualidade para o meu filho. Vocès fazem tudo isso, e fazem bem.

  • a cultura, o respeito pelo passado. Parabéns pelos museus, pelo orgulho e propriedade com que vocès todos falam da sua história e pela eficiència com que preservam lugares, monumentos e tudo o que fala um pouco de vocès. E , como me sinto um pouco mais "em casa" por aqui, sinto também parte do seu orgulho de mostrar a cidade, tão bem sinalizada e cuidada, aos brasileiros que me visitam.

A lista provavelmente ainda vai mudar até o dia em que, daqui a não muito tempo, iremos embora. Mas saiba, vossa majestade, que sentirei saudades. De toda ela.


Kind Regards,

Barbara

Tuesday, 10 February 2009

Branca de neve.


A neve seria perfeita se não fosse gelada... Mas, como nada é perfeito, ela não só é fria como também molhada! Depois de uma guerra de neve, ou de construir um boneco, tudo o que vc quer é entrar, tirar as luvas ensopadas e voltar a sentir os seus dedinhos!


É claro que mesmo assim, ela é a coisa mais linda do mundo! Gosto de olhar pra cima e ver o que me parece ser uma chuva de minúsculas penas em câmera lenta. É como se todos os habitantes de Londres tivessem feito uma guerra de travesseiros na cidade.

Quando eu e Arthur saímos, na segunda-feira passada para brincar, nos pegávamos parados em vários momentos, comentando um com o outro, estarrecidos:

Tão lindo! Tão lindo! Parece mágico!


Um dia de neve é um dia de revelações. Faz você lembrar que, apesar do frio, é preciso sair de casa e aproveitar. Que apesar da umidade gelada é preciso rolar no chão, escorregar de bunda e rir quando vc leva uma bolada na cara!

Por que em breve, a neve, assim como a gente, não vai mais estar ali.

Wednesday, 14 January 2009

Continua lindo? (editado!)

Depois de tirar umas longas férias do Blog e umas curtas férias no Brasil, escrevo de novo, embora pouco:

Fui de turista no Rio. Na noite em que cheguei, enquanto caminhava pela Visconde de Pirajá, ia pensando com uma ponta de tristeza o quanto tudo estava menor... e, pra ser sincera, mais feio também.

É claro que tem coisas que continuam tão lindas quanto na minha lembrança... As praias, a Lagoa... e as pessoas.

O sentimento de pertencimento, a certeza de ser querido e a alegria de querer bem são impagáveis, inexplicáveis... E o poder estar por perto. O compartilhar histórias. O compreender e ser compreendido - em português! Verbos que não eram conjugados já há algum tempo.

E, no final de três semanas que passaram intensas e rápidas como uma chuva de verão, o que ficou para mim foi, além das costas descascadas, a certeza de que são as pessoas que dão sentido a minha saudade. Foram os momentos que passei com elas é que fizeram a paisagem ganhar mais uma vez as cores, cheiros e barulhos que tinham na minha memória. A cidade, tão pequena a primeira vista, pareceu esticar ao sob a medida de cada passeio, encontro e despedida...

O Rio é minha casa, sempre será, por que também é casa daqueles a quem eu amo e das histórias que lá vivi.

Se a cidade continua linda, eu já não sei mais. Só sei que ela guarda pra mim a promessa daquele abraço. E isso, faz toda a diferença!

Monday, 4 August 2008

Paris



Paris me lembrou o Rio, não sei exatamente em quê. Talvez no charme, talvez no sol, talvez no verde do Sena e no azul do céu... Talvez no seu contraste com Londres. As ruas são largas, cercadas por prédios suntuosos, todos invariavelmente do mesmo cinza amarelado e morto. Não sei... aos meus olhos Paris tem a luminosidade de Monet, mas lhe faltam as cores de Van Gogh.


As igrejas merecem um parágrafo. São todas tão lindas, tão grandes. A beleza gótica e escura de Notre Dame, o caledoscópio de luz nos vitrais da Saint Chapelle, os seios brancos recortados no céu pela Sacre Coeur... O triste é que, em todas elas, por maiores e mais belas que sejam, não se pode rezar uma missa em paz. Os turistas expulsaram o sagrado. Com suas - ou melhor, nossas - câmeras digitais de 700 fotos, posando com um sorriso de cera ao lado de túmulos, interrompendo preces, pagando um ingresso para entrar e consumindo cada centavo-centímetro do lugar, banalizando o olhar, esvaziando o sentir. Veronique e Clement que o digam - um casal que bravamente tentava se concentar no próprio casamento durante o entra-e-sai globalizado que se dava. Vocês podem me achar dramática e hipócrita, mas de fato me toca perceber que em catedrais tão grandes não caiba nem um dedinho de Deus.


A Champ-Elysee tb me passou um ar de carioquice. Com um charme meio Leblon, é claro. Lojas, cafés com mesinhas na calçada... tudo muito caro e muito lindo, de um chique displicente... O metrô, eu achei totalmente anos 70. Para quem vêm de Londres, aliás, Paris toda parece estar há alguns anos no passado. Não que isso seja ruim, não me entendam mal. É apenas diferente. Diferente o suficiente para me chamar atenção.


Acho que uma das coisas boas dessa viagem foi que eu me dei conta que tão importante quanto para onde você vai é de onde você vem.


Eu fui para Paris, mas vim de Londres.

E antes disso, fui para Londres, mas vim do Brasil.


E por isso meu olhar, ricamente contaminado, vai comparando o que não tem comparação. Vai se admirando com a diversidade e com a semelhança de cada rosto, rua, praça, de cada fim de tarde... Me impressiona muito como o ser humano pode ser tão diferente e ao mesmo tempo tão igual. Como o clima, a história, as relações nos fazem singulares em cada parte do mundo. Os textos da Psicologia sócio-histórica, apresentados para mim pela Lilian, tomam um contorno de realidade e faço das minhas andanças quase que uma pesquisa antropológica.


Na volta para casa - é... Londres agora é minha casa! - carrego uma mala pesada. Nela tem mar de Ipanema e becos de Olaria, tijolos vermelhos de Beckenham, nuvens cinzas de Londres, e agora também, estátuas, vitrais, quadros e a luz de Paris.










Tuesday, 1 July 2008

Just a perfect day!

Hj o sol do Brasil veio me fazer uma visita. O dia foi quente, tão quente que meu biquini finalmente saiu da mala e conheceu o jardim daqui de casa, onde eu e minha vizinha brasileira nos estiramos para tentar bronzear pelo menos um tico nossas barrigas branquelas....

Mais tarde, andando por ruas inexploradas da minha vizinhança, percebi - mais uma vez - o quanto tudo aqui é lindo.

Árvores a cada dois passos, casinhas de tijolos que parecem saídas da ilustração de um papel de carta, jardim com rosas tão abertas e extravagantes que chegam a ser um ultrage (dá até vontade de roubar umazinha...). O cheiro no ar é de grama cortada, o barulho que se ouve é o vento nas folhas e os pássaros cantando...

Enquanto janto, vejo uma raposa se coçar e espreguiçar no nosso quintal... O céu azul só foi embora, agora, âs 9 e meia da noite, dando lugar a um lilás morno e conforting...

Tudo tão lindo e tão perfeito que, pela primeira vez desde que cheguei, senti que poderia ficar... Senti que poderia ser feliz morando de vez nesse país...

Mas é claro que o inverno vai chegar, que a saudade vai bater, que o visto vai expirar...

E por isso mesmo tudo é ainda mais lindo...
E por isso, deixo minhas janelas bem abertas...
Para que o sol, as cores, os sons e sabores dessa terra entrem em mim e deixem a paisagem, tb aqui de dentro, mais bonita...

Wednesday, 11 June 2008

Algumas cenas londrinas

Picadilly Circus. Trombadero.


Cercada de vídeo-games de última geração, luzes e sons por todos os lados, uma mulher coberta dos pés a cabeça por sua burca preta e opaca encosta o carrinho de bebê que empurra num canto, enfia algumas fichas no fliperama e prepara-se para a ação.




Bromley. Sábado de sol. 10 am.


O playground do parque está cheio. A grande maioria dos adultos que acompanham as crianças são pais - do sexo masculino! Nenhuma babá uniformizada a vista. Apenas duas mães conversam em um banco, enquanto homens de bermuda empurram balanços e seguram mãozinhas pequeninas no topo do escorrega. Num canto, uma mãe brasileira sorri.






Caminho da escola do Arthur. Manhãs de outono.


As árvores tiram suas folhas aos poucos. A paisagem é colorida de laranja e amarelo, algumas vezes surge, inesperado, um vermelho. Pai e filho - brasileiros - caminham em direção a rotina de mais um dia que começa. Na frente deles, passa e para o caminhãozinho do leite. Sentindo-se nas páginas de um livro infantil, eles observam quando o motorista sai do veículo de proporções também infantis para pegar uma garrafinha de vidro cheia de leite e deixá-la na porta de uma casa de tijolos marrons. Não parece nenhum pouco preocupado com a possibilidade (por qui, é melhor dizer impossibilidade) de algum ladrão chegar primeiro que o dono. Pega então mais uma de suas garrafinhas e já vai entregá-la na segunda casa, quando uma velhinha de quimono abre a porta para recebe-lo e conversar com ele. Todos os dias essa cena se repete. Se pai e filho se atrasam, pegam apenas a despedida da velhinha e seu amigo entregador-de-leite-em-garrafinhas.

Talvez um dia ainda vejam algum ladrão roubar o leite da frente de uma das portas, mas -para completar mais um detalhe da aquarela da pagina em que caminham - o gatuno será mesmo um gato: cinza, lambendo os beiços e de bigodes melados!